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Memoirs

por PAS, em 21.04.08

observo pela janela do meu quarto um sonho, criado entre reflexos e efeitos de luz criados pela aurora, no horizonte está uma ponte, o último portal do rio antes de acabar a jornada no oceano. a foz está pintada em tons de laranja e rosa, qual quadro de Monet. pela primeira vez observo o meu rosto entre o coito de reflexos e luz, a imagem que me chega é a de uma criança de 12 anos, de franja e cabelo cortado a direito, um rosto pintado com a inocência da idade, sublinhada pelo olhar sonhador dos verdes anos. os lábios, de um vermelho apenas possível por contraponto à tez dramaticamente branca, cantam palavras arrepiantemente familiares... clamam estas, um canto a infindáveis viagens entre Miramar e a cidade do Porto: here comes Oporto, hello Arrábida Bridge, good morning Campo Alegre, i'm comin' in.
o rosto afasta-se da janela, como que se apercebendo da solidão residente na sala, nela moram apenas sombras projectadas pelo surreal pôr-do-sol sobre meia dúzia de cadeiras. a voz de José Rodrigues dos Santos escarnece o silêncio quase poético, com mais um telejornal das oito, a criança, aquela imagem de mim na bênção da ignorância dança agora com os olhos pela sala à procura de algo que nunca encontrará... companhia.

com a clareza de um qualquer fenómeno natural, os olhos param de dançar pela divisão e estreitam-se novamente no horizonte, o sol já mal revela a sua forma. a pequena figura de mulher eleva-se da cadeira e faz dela um par, o resultado daquele gesto quase maquinal é um pequeno leito, sobre ele e ao ritmo dos últimos minutos de luz, os olhos da inocência fecham-se, com a imagem da silhueta da senhora da Arrábida, a ponte dos sonhos.
fecho os olhos e sinto-os húmidos, um vestígio desse sentimento escorre pela cútis, na janela do meu quarto já só está o meu reflexo e a saudade de ser criança, de ser inocente.
nasce um dia, morre um sonho.

PAS

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