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O dia em que a morte chegou

por PAS, em 16.09.09

está sentada na já habitual cadeira azul, desengonçada, ligeiramente inclinada para a direita, na direcção do seu lugar comum evocado por uma janela de 20 polegadas e pouco interesse. no fundo vozes desconexas enchem o ambiente de presença, uma manifestação que em nada altera a solidão que ela sente. embora estática caminha qual funâmbula por uma ténue linha de consciência, como que a querer esquecer os desgostos que o destino teima em encomendar. “este é o mundo em que vivemos”, repete ela ao seu reflexo no ecrã impecavelmente limpo, enquanto finge dotar o tempo de um empreendedorismo inexistente. todos os dias uma figura de luz amorfa, criada pelo namoro do sol com a estrutura em aço dos modernos e extensos estores eléctricos, brinca na mesa, nas imediações da sua mão direita. Independentemente da existência cabalmente assumida, ela inventa o ritual como um sinal de visita, do quê, ou quem, não sabe, mas finge… é um momento de insanidade a que se permite, no marasmo de ideias e pensamentos a que se tem obrigado.

hoje, prostrada no mesmo lugar, na mesma cadeira azul, à frente do mesmo espelho vazio, ela aguarda pacientemente pelo momento em que a figura esquizofrénica se revele, como um simbólico término do tédio, e da sub-existência, ela espera… e o tempo passa… mas o “ser” não aparece, rapidamente interioriza que hoje será um “daqueles dias” em que os segundos parecem minutos, os minutos horas, as horas dias, dias perdidos sem qualquer história, som, cheiro, um vazio. inclina os ombros para a frente derrotada enquanto tenta abafar um soluço seco que luta por revelar a angústia que o nó no estômago antevê.

uma música maquinal acorda-a do adormecimento superficial, olha contrariada para o pequeno ecrã LCD, do aparelho telefónico, na tentativa de revelar o intruso, mas a resposta nada subtrai aos contornos da incógnita, relutantemente pega no auscultador e emite um apagado “estou?” do outro lado rechaça uma voz negra: “a morte chegou!”

 

PAS

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