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Metades inteiras

por PAS, em 15.02.11

Para quem tem dificuldades em assumir que na vida existem momentos, sinais, que nos recordam aquela arte, ou engenho, de outrora, este pedaço de prosa não lhe servirá propósitos. Mas não será iníquo tentar.

Estava no conforto do lar, a exercitar o ócio, quando a ouvi pela primeira vez, uma voz doce, de sotaque brasileiro, arremessava, em ritmo poético, pensamentos. Descrevia-se como se o mundo estivesse nele e depois ele no mundo. Desviei o olhar do laptop e concentrei-o na caixa de sonhos – que hoje se assemelha mais a uma folha consignada pela evolução – na televisão, exibiam-se ícones do tempo e estados, uns de graça outros nem tanto. Eram momentos de uma década marcada pelo assombroso discurso de uma voz, qual peregrina do tempo, que espelhava o mundo à imagem do seu âmago, ou quiçá, vice-versa.

Fiquei prostrada. Não era a melhor poesia que ouvira, nem tampouco algo meritório de causar uma catarse qualquer. Mas por obra da arte do autor e do engenho de quem montou a peça, tornou-se maior que tudo, e conquistou-me.

Voltei a ser surpreendida mais um par de vezes até me decidir pela investida necessária para desvendar o autor, o ritmo ocupava-me a mente e segmentos da poesia apareciam-me como fragmentos indecifráveis, procurei e inventei inúmeros métodos para descodificar o inventor: nada. Nada era o que surgia de retorno, como se o mundo quisesse esconder de mim a obra e o poeta. Até que a razão tomou a obsessão, que por esses dias parecia maior que tal mundo, e qual veículo da clarividência encontrou a solução.

Contactei o canal de exibição e perguntei, na minha ignorância, o nome do poeta que declamava poesia sob o signo de imagens de uma década, ao que tão delicadamente a SIC respondeu: Oswaldo Montenegro, pai do poema Metade.

Fez-se silêncio na minha alma, procurei agradecida pela Metade que Oswaldo consagrara ao mundo, e só a ouvi de novo quando encontrei o escrito na sombra dos meus olhos. Li e reli, voltei a ler mais uma e duas vezes, sempre com a voz do poeta a substituir a voz da consciência e a cantar palavras de mérito. A metade ficou completa.

Já a catarse? Perguntam-se, fica nas minhas quatro paredes, naquele quarto antes contado e jamais exibido. Mas de prenda deixo-vos um excerto.

 

(...)

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflicta em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

(...)


Oswaldo Montenegro, Metade

 

PAS

 

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