Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Observo, hoje, entre a celeuma que se ergue por ordem de uma “geração à rasca”, o percurso corrido e arrastado na lama de miséria que um Estado criou. São anos, quiçá décadas, de subserviência a uma centelha de normas e ditames castrantes e insultuosos à condição humana, ironicamente condecorados pelo “papismo” de líderes políticos sob a égide de reformas, crescimento e competitividade. De permeio, no beiral dessa estrada olhada, vemos a exploração de uma classe de sonhos de morte anunciada. Vemos um princípio de escravidão, que lentamente, qual doença crónica foi evoluindo para se transformar numa relação perniciosa, de autoflagelo e sadismo.

Observo, hoje, a relação promíscua entre a jovem inocência laboral e o patronato como um qualquer síndrome de Estocolmo, onde o flagelante – patrono – toma um papel tão preponderante na sobrevivência do jovem, que este se submete ás condições que o primeiro desenha, sem contestar o conteúdo. E se neste cenário, como qualquer vítima de sequestro, é compreensível o laxismo e a inércia do jovem, pela situação de dependência decrépita que se criou, o mesmo já não acontece na figura de quem assume o papel director. Que dimensão de sadismo existe no corpo de quem submete o futuro da sua prole aos desígnios da precariedade? Quando é que o egoísmo de quem foi um dia filho e jovem se transformou na gerência pérfida desta sociedade?

São falsas questões, tão falsas quanto o caminho que muitos dos protagonistas desta hecatombe social percorreram rumo ao lugar mais alto da hierarquia, contornando regras, subornando opiniões, cultivando títulos de glória sem guerra, sem suor. Contaminando a infância com falsos conceitos de igualdade e justiça, fazendo porventura crer aos seus filhos que a desonestidade é o direito, a mentira o mérito. Que geração esperar desta descendência?

Não compreendo uma sociedade que usurpa quem mendiga pela sobrevivência, em nome da austeridade e permite, qual vassalagem à luxúria e ao fausto, salários principescos a compadres, por certo de qualidades supremas.
Contabiliza-se, de forma oficial, 25 por cento de jovens adultos portugueses no desemprego, arrisco-me a depreender que outros 25 estarão entregues à “misericórdia” do patronato e dos seus falsos recibos verdes, arriscando mês sim, mês também, uma nota de sincero agradecimento pelos serviços prestados junto a uma declaração de dispensa, sem a salvaguarda que a nossa constituição de direito e democracia acertou um dia pela virtude de quem trabalha. É uma chaga. Uma vergonha.

Pergunto que futuro espera uma nação quando hipoteca a vida de quem um dia terá aos ombros a tarefa de a carregar?

 

PAS

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2012
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2011
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2010
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2009
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2008
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2007
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2006
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D