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O Terceiro Andar

por PAS, em 13.09.13

Não sou uma pessoa de hábitos complicados, alguns deles caem inclusive na trivialidade, um sintoma que nunca forçou um incómodo em mim. Gosto de coisas simples, em contextos simples, com histórias simples. Como estar sentada, à mesa, numa cadeira de vime, parte de um conjunto de mobiliário exterior. Observar, ao longe, barcos acumularem-se no horizonte marcando posição a uma corrida nocturna à subsistência. Para companhia convido apenas a ténue luz de uma vela decadente, um copo de coca-cola borbulhante, que luta desenfreadamente contra agressão do gelo, e por fim o pensamento. 
Não vou mentir. Penso, penso muito, obcecadamente, por vezes, mas é a essência do meu estar, um padrão ímpar nos meus hábitos. A minha vida.

Enfim. Estava num dos meus momentos, a que o destino chamaria trivial, não fosse a ausência de um copo de Jack Daniel’s e um cinzeiro de cheio de cigarros mortos pela minha vontade inconsciente de morrer. A companhia era aquela que me fazia o hábito e o olhar estava prostrado na conversa agitada entre dois amantes. A distância era soberba, semelhante à de um atirador furtivo em inicio de carreira, mas era clara a intimidade. Havia entre os dois um ballet de agressividade apenas comum a quem já havia partilhado o leito. Um vulto moreno, de cabelos compridos, agitava a cabeça em sinal de inquietude, enquanto o par, robusto e penteado da moda, esbracejava e mudava o peso da sua estrutura de uma perna para a outra com demasiada frequência.
Não ouvia uma palavra, mas imaginava sons de ódio feitos palavras, numa pauta de inferno com um único destino. A cama.

“Não vales nada. És um síndrome de nada, de tão nada que és”
“Sua cabra! E tu? Tu és um case study para alguma coisa que se esqueceu de ser”

A conversa tinha tanto de profunda como de superficial, consoante a interpretação do momento, naquele instante decidi não desenvolver. Continuei a espiá-los, do terceiro andar oculto, até abandonarem a calçada da querela em marcha fingida, rumo ao mesmo destino. Fingi um “yes” com o braço direito e recostei-me na cadeira, apenas com o som do vime como prova de vida e imaginei como seria a vida sem estas lutas, constantes, em nome de algo tão subjetivo como o amor.

(To be continued)

PAS

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