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Hollywood

por PAS, em 21.06.06

dizia-me um pseudo-conhecido: "há alguma dama ou cavalheiro que tenha a bondade de me auxiliar?", dizia-o de forma ritmada, como o glosar de um musical à mendigagem... mas comecemos pelo princípio.
investia eu pelos eternos corredores e escadas rolantes do metropolitano da Baixa-Chiado, procurava o lugar que acedia à minha longa viagem para a nobre Alvalade. Encontrei-o tão despido de cor como de gente, vislumbrei a poucos metros, quase oculto pela escuridão das sombras, um homem cabisbaixo, brincava com o que parecia ser uma vara (tipo: estão a ver o Dr. House?, era antagónico!)... tive num instante receio pela solidão que nos unia. "eu só com um tarado de vara?" dizia aquele departamento sofrido da minha consciência, entre momentos de confiança exacerbada e teatral. abracei-me.
por motivos superiores à minha homo sapiens sapiens sapienidade a estação pareceu envolver-se numa escuridão, digna de uma ode à obscuridade... tentei convencer-me que o escuro, como o frio e tantas outras coisas estúpidas, era psicológico mas uma vez mais a minha consciência sofrida se manifestou. parecia uma cabala, a escuridão, a ausência humana, a dramatização do homem cabisbaixo de vara em punho... era o destino a dizer-me "baza-baza, vai p'ra casa-casa, abre a pestana-tana, qu'isto aqui não é um filme babe!" - ok a parte do babe não entra na música mas convenhamos que "boy" não se adequa à minha sexualidade!
um ruído estranho ao silêncio wes craveniano, soou e eu que permanecia inerte, freezed qual bloco de gelo branco, pálido (imaginando, claro!, a existência, ainda que rara, de cubos de gelo corados...) estremeci. seria o metro? ou o último, o derradeiro elemento do drama que me levaria à vitimização de um qualquer acto criminoso?
o ruído elevou-se e com ele fez-se luz... era o metro! estava salva!
apressei-me a entrar na barca da salvação, sentei-me naqueles bancos sujos e descascados como se fossem poltronas Divanni & Divanni... pensei quão acolhedor conseguia ser um velho metro, a presença de dezenas de desconhecidos, ser a agulha no palheiro.... hum, era de facto capaz de amar aquelas pessoas... aquele palheiro.
enquanto me enleava com estes pensamentos petrarquistas um bater irritante no chão teimava em assassinar a minha boa disposição. interrompi o meu estado etéreo e voltei-me para identificar o usurpador do momento, quando no meu raio de visão surgiu um homem hirto, de vara na mão e convicto... assustei-me de novo, estaria a ser perseguida? olhei com mais cuidado a personagem assustadora, à espera de identificar o meu quase-talvez-agressor, era alto, e tinha uma expressão estranha... não! ele não tinha uma expressão estranha, ele era cego! e no mesmo momento que a minha agora lívida consciência tomou conta do facto, o desconhecido fez-se ouvir: "há alguma dama ou cavalheiro que tenha a bondade de me auxiliar?"

PAS

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4 comentários

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De Peter Pan a 23.06.2006 às 18:24

(aplausos, aplausos)
Quem mais conseguiria, sem a ajuda de mágicos cogumelos alucinogénicos, transformar um apontamento quotidiano tão banal na vida desta cidade num guião tão barroco, tão denso?
Parece que acabo de ler uma cena oculta de um filme de David Lynch... será que Hollywood é mesmo o teu destino?
Ou estás a ler esse escritor maior que a vida, o argentino Jorge Luís Borges?

De qualquer modo, venho gostando muito (deste e de alguns outros, um dos quais remete para grandes tempos...)
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De André Ricardo a 24.06.2006 às 03:17

Ok.Isto até chega a ser assutador.Parece a pseudo cena de um filme americano.Um daqueles filmes de pseudo pânico.Pode ser até tudo pseudo nesta história...mas fica realmente densa.Quase que oiço as batidas na vara e o ranger da linha de metro...É o ataque das varas cegas.MEU DEUS!O pânico.O terror.A impotência.As varas estão vivas...e vão voltar, quando menos se esperar...!Só queria referir uma coisa...há "varas" falsas.Eu uma vez, bem vi o "cego" a levantar a palpebra...e a olhar para quem poderia ser a sua próxima vítima.Vi!Com os olhos que um qualquer Deus me deu...

PS - o pormenor glorioso deste texto, é o aparecimento do AC.Numa situação dessas, pensa-se em quem?No Boss!Porque o Boss AC e Deus são a mesma e uma única pessoa.Nunca foram vistos no mesmo local juntos e aparecem sempre quando é preciso...tenho dito...
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De BellaMafia a 25.06.2006 às 16:24

para o tão aguardado Peter Pan, regressado da tera do nunca: hum...Jorge Luís Borges, nem por isso, mas vou já informar-me, pode ser que seja mesmo um escritor e não um pseudo-escritor com maneirismos literários...lol quanto a associação ao Lynch, bem! acho que depois disso não preciso escrever mais nada, estou lá! em mulholland drv, na caixa azul..., sou eu a surpresa!lolol
gostei de "te ler"... por favor continua que é sempre uma experiência agradável.

quanto a Andrew Richard, para que fique esclarecido, eu cobrei de facto ao BOSS a publicidade que fiz neste meu concorrido blog! ninguém passa impune, nem o Deus!lol.
Ah! e o "cego" que levantou a pálpebra, não estava de facto a levantá-la, aquilo foi um esgar - é que ele em consequência de um lifting feito recentemente, quando sorri ou faz por isso, a pálpebra mexe! tipo tás a ver?lol puxa de uma lado mexe no outro...
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De individualidades a 28.06.2006 às 00:22

as vezes pergunto-me, porque é que os cegos metem tanto medo, eles veem menos que nos (verão?), sabem menos que nos (saberão?)... não sei... talvez sejam aqueles olhos..ninca saberemos se por detras deles estara realmente a escuridão, ou um pretexto de atenção. lembras te enquanto desciamos as escadas daqule metro tao familiar.. e contra as expectativas fui eu q embati num cego, acho q o grito que emiti foi bem revelador do medo de embater nesses pilares intocaveis desta sociedade dos transportes, são os cegos e os cães tudo uma cambada ambulante de..não sei bem o que... será esmolas e passados familiares depressivos para qualuer comum transeunde dos transportes publicos...certooo... quase que aetece dizer..tens bom corpinho..deixa de assustar as pessoas, abre os olhos e vai trabalhar... pronto foi um desabafo...sinbto-me doente hoje..amigdalitica..lololol

um beijo, gost de me rir cntg...

da sis Ana

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