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estava um calor de morte, os lençóis, depois de várias vezes repudiados, exibiam o desespero pela era glaciar, as portadas do quarto estavam cerradas protegendo-me da insegurança das janelas abertas, eu tentava solucionar a minha pseudo-insónia estrangulando a almofada e colocando-a em posições pouco ortodoxas, numa tentativa clara de descobrir a relação científica entre a almofada e o sono. enquanto me distraía, qual sonâmbula, com futilidades, extramuros - na rua - um plot desenrolava-se qual amores perros de Alejandro González Iñárritu, sem as lesbiandades... acordei contra-feita da residente pseudo-insónia, achava insultuoso que os meus pais se dispusessem a discutir em plena madrugada - 8 da manhã de sábado é madrugada, não vale a pena refutar - quais boémios da amarguinha, quando me consciencializei de que a discussão (para não dizer filme) vinha do exterior... vozes elevavam-se como se timbres disputassem o troféu de maior tenor do bairro - mal sabia eu que se disputava mais do que timbres. levantei-me da cama "descamada" e dirigi-me ao hall onde encontrei, quais voyeurs de uma janela indiscreta, a minha família em peso... num instante tentei almejar o bom senso pensando na indiscrição do acto, mas rapidamente calei a voz castrante e juntei-me à plateia. ok! a partir deste momento não tomo quaisquer responsabilidades pela narrativa, os dedos dançaram pelo teclado ao som da minha inconsciência.no exterior encontravam-se cerca de meia-dúzia de pessoas, discutiam violentamente e sem causa, nem efeito. o local era a conhecida "casa do Pai Natal bordeleiro", porquê este nome? digamos que a decoração natalícia foi favorável ao baptismo. as personagens em acção eram dignas de uma revista de Filipe La Féria. em primeiro plano, personagem principal, nomeado para melhor interpretação violenta num bairro dos subúrbios, estava um rapaz robusto, desnudado, revelando toda a pujança de um touro enraivecido, intimidando o ambiente, inclusive o pitbull. este possante rapaz, que por acaso também era de cor - preta, claro! - gritava cantos desinspirados (porque não dizer transpirados) à sua amada Black Pussy, rapariga caucasiana com ambições a ser de cor e com graves problemas de dissociação de personalidade. bem... enquanto a dita Black Pussy rejeitava verbal e gestualmente a intervenção do Action Man (rapaz de cor possante), baptizando-o inclusive com uma panóplia de nomes pouco condignos do léxico português, mas certamente bastante coerentes na sua escola de vida, entra em cena "a mãe", mais conhecida por Stripper/Babbysitter - as origens do nome são confidenciais, mas suspeita-se que esteja relacionado com as actividades nocturnas da sujeito e do seu guarda-roupa. a Stripper/Babbysitter confrontada com o drama subjacente solta a sua voz gutural, presença assídua em todas as casas do bairro, e tenta incutir bom-senso ás duas figuras de um qualquer Romeu e Julieta de Bairro J. o seu companheiro, figura esguia, tipo tábua raza de prateleira com óculos, de nickname Wally, exibia o seu descontentamento transformando os seus olhos, normalmente redondos – quais dots de uma personagem de um filme animado da Manga – em dois traços horizontais carregados.
depois de várias tentativas falhadas de “injectar” bom-senso na querela, algo esperado pela plateia dada a condição pouco abonatória da Stripper/Babbysitter, avança Wally de olhar horizontal e profundo... aquela figura frágil de ossos salientes não demorou muito a regressar à condição de “Wally – o indivíduo que se imiscui na multidão”, pois mal avançou de peito cheio para o Action Man recebeu um estalo, do qual só acordou no chão.
entra em cena o “Empregado de Mesa Insuflado”, também conhecido por irmão de Black Pussy, ou primogénito de Stripper/Babbysitter, este que até então se limitava a observar o aparato residencial, como um espectador interessado num filme de acção hollywoodesco aguardando ansiosamente pela cena do bar de strippers, decide avançar em prol da família, fazendo esvoaçar a sua t-shirt de alças branca e exibindo o fulgor do seu volume muscular. o suspense aumentava, preparávamo-nos agora para observar um combate de pugilismo de pesos pesados – que mais não fosse pela envergadura física exibida pelos concorrentes -, a eterna batalha entre a luz e as trevas, o branco e o preto, a batalha do dia contra a noite... resultado: K.O ao primeiro round! o Empregado de Mesa Insuflado avançou com ímpeto (mas aparentemente sem argumentos) em direcção ao Action Man, com o intuito de afastar o touro enraivecido de Wally, mas mal entrou no circulo de acção do alfa[1] prostrou-se também ele no chão na companhia de Wally, após um valente gancho de direita e uma sucessão de pontapés abdominais. o Action Man espumava, o cão chorava e nós abriamos os olhos incrédulos à cena streefight versão portuguesa.
quando já nada fazia esperar mais que um tomar de posse de Action Man, como o eterno “gajo que reina no cubículo”, surge à porta uma figura de idade, frágil e desconhecida , presumo que não só ao possante rapaz de cor – preta, claro! – pensei se não teria todo este arrufo causado problemas de saúde à desconhecida avó, prostrada à porta... mas mais uma vez fui surpreendida, a senhora não era frágil, nem tinha qualquer problema de saúde, de facto ela parecia uma verdadeira Margaret Tatcher, em pleno domínio do parlamento. da sua boca não saiu qualquer voz gutural, ou cocktail de palavrões, muito comuns na “casa do Pai Natal bordeleiro”, mas um conjunto de palavras estranhamente coordenadas, para qualquer morador daquele antro! a MT (Margaret Tatcher, senhora de aparência frágil e de idade avançada) dirigiu-se ao Action Man e afirmou tão simplesmente: “o senhor (espantoso como ela conseguiu ver ali um senhor) está na minha casa, já discutiu com a minha neta (Black Pussy), já bateu no meu genro e no outro que acho que é meu neto mas não tenho bem a certeza (não contive uma risadinha!) e por fim acordou-me. Lamento imenso mas o circo acabou. Mal acabou a MT de proferir as quebrantes, mas de certa forma parcimoniosas, palavras sai Wally de casa, local onde se tinha entretanto refugiado após o abardinanço anterior, mas não sai de lá sozinho, com ele vinha um enorme pau, eventualmente o único elemento da natureza capaz de rivalizar com o Action Man... Foi neste contexto, entre palavras de desprezo de MT, onde constavam acentuadas ameaças de contacto com a polícia, e o baloiçar do pau entre o céu e o chão com o rapaz possante no horizonte, que o Action Man abandonou o local, entre juras de amor a Black Pussy e ameaças de terror ao resto dos moradores com promessas de um regresso anunciado.
Nota: a tão esperada policia, encomendada por um vizinho incomodado, e a certo ponto do desplante, também ameaçado pelo Action Man, chegou meia-hora depois do jovem possante, de cor – preta, claro! - ter abandonado o local de peito nu e t-shirt na cabeça a lembrar o rapper “50 cêntimos”, herói americano que prega a imoralidade para alcançar sucesso!

PAS

[1] Macho dominante numa matilha de lobos

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1 comentário

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De individualidades a 06.09.2006 às 18:49

fantastico...era preciso la ter estado...
não o escreveria melhor...
o "alfa" foi completamente determinado...resta saber quem seria o "omega", se o "wally", jovem possante horizontal...se o "empregado de mesa" com claras dificuldades geneologicas... a "black pussy" por aquilo que vi/ouvi, embora se tenha denotado um esforço enorme em comover a plateia com as lágrimas de convulsão, fica completamente ilibada de tal título (omega) pela casta de maldizeres...ao individuo alfa. fica aqui a nota.
adorei. so tu para te lembrares da "casa do pai natal bordelejeiro", que se lixe a casa rodrigues, venha o pai natal, que assim como assim, é o que frequenta mais assiduamente as instalações.

um beijo, com um sorriso

Ana

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