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História de Natal

por PAS, em 11.03.14

Era uma vez uma mulher que tirava prazer apenas das pequenas coisas, gestos perdidos, como o de uma mãe a ajeitar o chapéu do filho antes de este entrar na escola, e numa fracção de segundo, quase silencioso, uma caricia que se perde no roçar da mão dela pela face do menino, é revelado como se um testemunho do seu amor ficasse gravado para eternidade. Eram apenas as pequenas coisas.
Um dia andava a incógnita pelas ruas de uma Lisboa molhada, pela bênção de S. Pedro, quando no reflexo de uma montra, decorada para as festas de Dezembro, a figura de uma rapariga a consternou. Era pequena, de tez branca, tão branca quanto a natureza do Inverno permitia, sardas saltavam do nariz para as bochechas como uma civilização em desenvolvimento, os olhos castanhos eram profundos como a inocência que brotava deles, e aquele corte de cabelo, de franja bem definida, era a divisão entre o quotidiano e a vida vivida. Sim, aquela criança era ela. 
Aproximou-se do reflexo e tentou tocar-se, ignorando todas as leis da física e da lógica universal. Por qualquer razão ela sentia que o momento era superior a tudo o que era lógico e racional, a magia pairava naquele reflexo feito retrato da sua infância. Ao toque seguiu-se um vazio que a transportou à criança em si.
Era 1988, 24 de Dezembro, a noite era fria, como uma palavra dita sem eco. A mesa estava posta, pratos de fina porcelana e copos Cabernet brilhavam à luz de velas vermelhas, sobre uma toalha coberta de frutos secos e doces de época. Respirava-se Natal. A mãe cobria a azáfama com a sua diligência, “Está na hora”, dizia. Os presentes amontoavam-se metodicamente por baixo do nome de cada um. No seu volume de graças reparou num embrulho em particular, o entusiasmo infantil era difícil de controlar perante a dimensão do mesmo, era como que a antevisão de algo grandioso, algo mágico, algo capaz de apagar da mente de uma criança preocupações de adultos. 
Não demorou muito até chegar a sua vez, era a segunda pessoa mais nova presente, e a tradição mandava que a árdua tarefa de revelar os anseios de uma época fossem feitos de forma crescente. Rapidamente a ânsia que morava no interior mascarada de esperança por objectos de desejo deu lugar à excitação da revelação. Deixou o presente que lhe aguçara a atenção para último, como que reservando a si não só prazer da descoberta como a vitória de um duelo entre a ignorância e a esperança por um objecto de valor. 
Embrulhada estava uma guitarra-piano elétrica, vermelha, perfeita. A criança nela exultou. Ia, finalmente, poder acompanhar o pai nas suas sessões de música noturnas. Ia, finalmente, poder ser como o pai. 
Na guitarra existia, para além dos elementos expectáveis da mesma, um botão com uma versão demo para ajudar a treinar dedos não educados. Ela premiu o botão e da guitarra soou uma versão instrumental da música “Last Christmas”, dos Wham, por razões que não soube explicar abraçou o instrumento como se um companheiro fosse, e deixou que a música a embalasse no sonho que o Natal sempre prometia. Olhou em volta e viu a mãe a sorrir e o pai orgulhoso. A mulher dentro da criança quis permanecer ali, naquele momento, para sempre. Onde a mãe sorria e o pai a olhava enquanto ela abraçava uma ideia. Afastou a guitarra de si e no vermelho vivo viu o seu reflexo, uma jovem mulher, de ombros curvados e abraçada a si por conta da intempérie. Fechou os olhos e gravou o momento, sabia sem perceber que a viagem terminara. Quando os abriu novamente estava de regresso à rua de onde partira, em frente a uma montra que agora reflectia somente a sua presença. 
Respirou fundo e apertou-se ainda mais, como se ao frio se tivesse juntado a perda, mas, enquanto uma lágrima prometida escorria pela sua face, e uma catarse se manifestasse naquele lugar, compreendeu o sentido do evento.
Mais do que uma troca de presentes, mais do que uma reunião de família e amigos, mais do que uma celebração religiosa, o Natal era a celebração das memórias que o tempo oferecia com o selo da infinidade. 
Com esta revelação, abriu um sorriso, e seguiu para casa iluminada e preparada para um novo Natal, com a imagem da mãe a sorrir e o pai a olhar com orgulho.

 

PAS

 

Feliz Natal a todos os presentes e ausentes. Que este dia vos traga acima de tudo sorrisos e novas recordações para este álbum de nome vida. 

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