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Ser e não ser

por PAS, em 21.10.10

Deparei-me hoje com algo que poderá muito bem ser o cúmulo do meu enredo. Gravou-se na minha consciência que talvez, quiçá, a minha condição não seja tanto um problema mas antes uma má localização geográfica; ou, talvez, quiçá, a minha existência seja tão só uma mera experiência de deslocação psicológica, transversal aos efeitos de fenómenos atmosféricos na Manas. Quiçá, talvez, seja um caso de “duo existência”, onde um estado vive no seio da vida e outro no seio da morte... uma coisa é certa, digam o que disserem da minha natalidade, ou naturalidade, mas antes de ser Portuguesa sou profundamente Norueguesa, pelo menos foi o que este excerto, de David Greig me convidou a pensar:

 

“In Norway we’re used to darkness in people’s heads. We even prefer it. Because if there is no darkness, then what in heaven’s name are you thinking about? We Norwegians think people who are happy are perhaps just a little bit above themselves, don’t you?”

 

Being Norwegian, 2007, de David Greig

 

PAS

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Carta à Nação

por PAS, em 15.10.10

Querida Nação,

 

Estou estupefacta com o que se passa neste país. Não posso, de facto, garantir em momento algum ter tipo grande fé na capacidade dos nossos políticos – ou em quaisquer outros, diga-se – mas o que se passa actualmente é por demais escabroso e insultuoso para comprar como mais uma penosa governação.

Hoje observo uma manifestação quase hipnótica de vários agentes a defender a aprovação de um atentado ao direito à vida, seja pela subtracção dos bens que o sacrifício diário gera, ou pelo aumento do valor de outros bens que nos aconchegam... estamos entregues a uma doutrina que evoca a imperativa aprovação de um documento virtual, que todas as semanas vai cuspindo novas medidas de austeridade, nunca no sentido do corte de despesa, mas no aumento da receita à custa de quem legitimamente espera gozar os frutos do seu trabalho.

Observo uma sociedade tão traumatizada pelas feridas recentes de uma crise económica global, que se oferece para participar num show de sadomasoquismo preconizado por uma governação despida de consciência.

Como olvidar perto de 11% de população em idade laboral no desemprego e pedir que se suba IVA, que se cobre IRS indiscriminadamente, que se diminua a dedução fiscal, que se peça o estrangulamento autónomo de cada indivíduo? Famílias a tentarem sobreviver com o ordenado mínimo... Como? As crianças, como? E aqueles que vivem da boa vontade e da doação? E aqueles como eu, que querem sonhar, sonhar com uma família, com uma casa cheia, com uma vida cheia?

A apatia, a submissão conta-me a história de um qualquer síndrome de Estocolmo, como se as almas dos portugueses tivessem sido seduzidas pela miserabilidade e hoje já não conhecem outra realidade, ao ponto de a defenderem como inequívoca, necessária. Não é suposto sofrer-se para viver, não é suposto sobreviver-se.... É suposto tão só viver-se.

 

PAS

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Confissões II

por PAS, em 11.10.10

São 3 da manhã, é domingo, véspera de aulas... todos dormem, o silêncio vagueia pela casa como que perscrutando o medo, aquele medo que me acompanha e se deita comigo, o pânico. São 3 da manhã e levanto-me, não consigo dormir. Passeio pelo corredor, sinto um nó no estômago, uma dor inexplicável no âmago. Vou até à sala, ligo a televisão, encosto-me e espero que o nó se desmanche e a dor sucumba sob a magia de uma caixa mágica, mas o par permanece, olho para o ecrã e não distingo o que vejo... era como se uma tela se interpusesse entre o meu estar e o mundo, transformando tudo obsoleto.

 

Volto ao quarto, continuam todos a dormir, respiro fundo pela enésima vez: “Também quero dormir... eu não consigo dormir!” a mensagem passa pela minha mente repetidamente, como um tatuar frenético de uma visão impotente.

Abandono novamente o quarto, avanço pelo corredor, um olhar de abandono dirige-me, sinto o desespero a instalar-se e não compreendo: “O que passa comigo?”

O meu coração anuncia a adrenalina, dou mais uma golfada de ar... e depois outra, olho indiscriminadamente para as paredes à espera de uma resposta, o meu cérebro projecta probabilidades sob probabilidades, causas e efeitos, branco só vejo branco, olho para o relógio do meu Ericsson: 5 da manhã... a dor persiste o nó resiste.... “Ahhh quem é que me ajuda? Alguém me ajude...” continuei a vaguear até à cozinha, como se andar amortecesse a loucura, exaurisse a anormalidade do meu corpo, expulsasse a comoção, mas ela manifestava-se qual partida do destino ao ritmo pautado de cada passo dado. O escuro, as sombras assumiam agora os contornos da minha instabilidade, a noite tornara-se má conselheira e o medo, o pânico alimentavam-se dela. Senti-me encurralada pela minha loucura, pela minha mortalidade, pelo ser que já não era... olhei para a janela da cozinha e pensei como seria fácil acabar com o tormento se me entregasse ao vazio. Como seria rápido vergar-me ao destino e voar para a minha morte. Uma pancada fez-se sentir no meu estômago acordando a consciência adormecida, “Meu Deus, o que é isto?” afastei-me assustada da janela e com receio da minha ausência de compostura, liguei para o único lugar que concebia outro estar: CASA

Abro a tampa do telemóvel e ligo para casa, uma voz baixa e seca responde...Papá!

O que dizer, como explicar, nada fazia sentido: “ Papá, preciso de ajuda, não me sinto bem, eu não sei o que se passa comigo, não consigo dormir e... e não me sinto bem... por favor ajuda-me! Ajudem-me...”, soava a um mau filme de terror, de discurso desgarrado, do outro lado surgiam palavras de conforto, calma e racionalidade... Percebi que era ridículo, até para mim, naquele estado, pedir ajuda ás cinco da manhã a alguém – mesmo sentindo a pressão do desejo e da consciência– que estava a 30 km de distância. Chorei sem lacrimejar, senti-me exausta sem sono, morta com vida...

Vazia de apoio, cheia de sombras e medo, assumi que a solução residia na assunção da minha fraqueza e de partilhar a mesma com aqueles que desejava que não a conhecessem. Perder-se-ia para sempre a imagem indelével, confiante e forte que semeava, erigir-se-ia uma sombra da existência, do intelecto, um retrato frágil e caduco, sem reserva de orgulho. Era a cobrança necessária para sobreviver ao assalto da minha consciência. Viveria depois deste dia até vontade em contrária de um Deus qualquer uma semi-existência.

Fui à cabeça da cama onde descansava aquela que tinha por melhor amiga, esperei uns segundos, como que a permitir uma qualquer objecção ao acto, e acordei-a.

 

Neste minuto morreu parte de mim, sobrevivendo para memória futura uns resquícios de estar, qual nostalgia comportamental, a fazer lembrar o que fora e a não deixar esquecer o que era.

 

PAS

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