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Carta da revolta

por PAS, em 04.11.09

Apesar de ter sido narrado por mim, naquele estilo inconfundivelmente "fixe" , este texto relata o incidente de alguém que me fez sentir ultrajada:

 

Gripe sem A

 

Gostava de expor o meu desagrado pela conduta dos responsáveis médicos face à gripe A, depois de inicialmente se ter observado um empolar da crise epidémica, com poucos contornos de epidemia, os meses passaram e a preocupação pareceu passar juntamente com eles. Tive oportunidade de testemunhar em primeira-mão a falta de respeito dos agentes médicos a possíveis casos de gripe A, casos bem mais reais que as supérfluas demonstrações epidémicas do Verão passado. Passo a explicar:

 

O meu filho apareceu em casa com fortes sintomas de gripe A, ao que respondi telefonando de imediato para a linha Saúde 24, como indicado pelos meios de comunicação, durante a conversa foi-me transmitido que face aos sintomas descritos devia dirigir-me ao SAP da Venda Nova. Não demorei a dirigir-me ao local consciente das dificuldades pelas quais o meu filho passava e pelas suspeitas fomentadas pela sua condição. Ao chegar ao local deparei-me com a negação tácita de auxílio médico por parte de um segurança, a razão parecia residir no facto de apenas as pessoas com senhas terem “direito” a acompanhamento médico, de permeio, entre um estado de incredibilidade e exasperação, foi-me comunicado que a solução passava por me dirigir juntamente com o meu filho enfermo ao hospital. Não fiquei satisfeita, mais uma vez o serviço nacional de saúde mostrava a sua falta de competência e diligência. Desloquei-me novamente, desta vez em direcção ao Hospital Amadora-Sintra, ainda e sempre com o meu filho doente e febril. Passei pela triagem e descrevi novamente os sintomas de gripe A ao funcionário de serviço, pediram-me para aguardar e eu aguardei juntamente com o meu filho doente com 39,5º de febre, sentada no chão, face à falta de bancos. Esperei não uma hora, não duas, nem três... mas sete horas até me ser concedida a atenção requerida, o meu filho já mal se aguentava sentado, acompanhei o médico a um gabinete para finalmente me serem confirmados ou negados os receios que suspeitava, afinal o vírus H1N1 era letal, como demonstrara recentemente a morte de uma criança poucos anos mais nova que o meu filho. A resposta, no entanto, foi tudo menos a que qualquer pessoa poderia esperar, foi-me comunicado que os hospitais já não realizavam testes de despistagem para o vírus e que dessa forma seria impossível confirmar que doença tinha, se a gripe sazonal, se a gripe A, receitaram os já comuns medicamentos para combater a gripe e pediram-me que colocasse o meu filho em quarentena. Fiquei sem palavras, sai do hospital tão despida de respostas quanto chegara, não sabia se o meu filho tinha a mortal gripe A ou a plebeia gripe sazonal, o que comunicaria à escola que frequentava? E todos os membros da família que tinham estado com ele? Deveria eu aconselhá-los a tomar Tamiflu? O que deveria eu fazer para além de isolar o meu filho do mundo por razões não explicitas ou justificadas?

 

Não será de todo desproporcionado condenar toda a organização de saúde – ou falta dela – que durante meses procurou criar um clima de alerta face à gripe A, a criar um clima de pânico desmesurado, a dar um sem número de conferências de esclarecimento e indicações processuais de como evitar o contágio e consequentemente a epidemia, e no final, a doença tão temida pelas autoridades era tratada com a mesma displicência que uma dor nas costas.

 

Não espero com isto que todo o sistema se revolucione, não depois de anos, décadas, de marasmo e sistemáticas indicações de incompetência, mas quem sabe, talvez o meu testemunho se junte ao de muitos outros e dessa forma se desmascare as falsas pretensões de um serviço de saúde competente.

 

De uma utente,

 

PAS

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