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Confissões II

por PAS, em 11.10.10

São 3 da manhã, é domingo, véspera de aulas... todos dormem, o silêncio vagueia pela casa como que perscrutando o medo, aquele medo que me acompanha e se deita comigo, o pânico. São 3 da manhã e levanto-me, não consigo dormir. Passeio pelo corredor, sinto um nó no estômago, uma dor inexplicável no âmago. Vou até à sala, ligo a televisão, encosto-me e espero que o nó se desmanche e a dor sucumba sob a magia de uma caixa mágica, mas o par permanece, olho para o ecrã e não distingo o que vejo... era como se uma tela se interpusesse entre o meu estar e o mundo, transformando tudo obsoleto.

 

Volto ao quarto, continuam todos a dormir, respiro fundo pela enésima vez: “Também quero dormir... eu não consigo dormir!” a mensagem passa pela minha mente repetidamente, como um tatuar frenético de uma visão impotente.

Abandono novamente o quarto, avanço pelo corredor, um olhar de abandono dirige-me, sinto o desespero a instalar-se e não compreendo: “O que passa comigo?”

O meu coração anuncia a adrenalina, dou mais uma golfada de ar... e depois outra, olho indiscriminadamente para as paredes à espera de uma resposta, o meu cérebro projecta probabilidades sob probabilidades, causas e efeitos, branco só vejo branco, olho para o relógio do meu Ericsson: 5 da manhã... a dor persiste o nó resiste.... “Ahhh quem é que me ajuda? Alguém me ajude...” continuei a vaguear até à cozinha, como se andar amortecesse a loucura, exaurisse a anormalidade do meu corpo, expulsasse a comoção, mas ela manifestava-se qual partida do destino ao ritmo pautado de cada passo dado. O escuro, as sombras assumiam agora os contornos da minha instabilidade, a noite tornara-se má conselheira e o medo, o pânico alimentavam-se dela. Senti-me encurralada pela minha loucura, pela minha mortalidade, pelo ser que já não era... olhei para a janela da cozinha e pensei como seria fácil acabar com o tormento se me entregasse ao vazio. Como seria rápido vergar-me ao destino e voar para a minha morte. Uma pancada fez-se sentir no meu estômago acordando a consciência adormecida, “Meu Deus, o que é isto?” afastei-me assustada da janela e com receio da minha ausência de compostura, liguei para o único lugar que concebia outro estar: CASA

Abro a tampa do telemóvel e ligo para casa, uma voz baixa e seca responde...Papá!

O que dizer, como explicar, nada fazia sentido: “ Papá, preciso de ajuda, não me sinto bem, eu não sei o que se passa comigo, não consigo dormir e... e não me sinto bem... por favor ajuda-me! Ajudem-me...”, soava a um mau filme de terror, de discurso desgarrado, do outro lado surgiam palavras de conforto, calma e racionalidade... Percebi que era ridículo, até para mim, naquele estado, pedir ajuda ás cinco da manhã a alguém – mesmo sentindo a pressão do desejo e da consciência– que estava a 30 km de distância. Chorei sem lacrimejar, senti-me exausta sem sono, morta com vida...

Vazia de apoio, cheia de sombras e medo, assumi que a solução residia na assunção da minha fraqueza e de partilhar a mesma com aqueles que desejava que não a conhecessem. Perder-se-ia para sempre a imagem indelével, confiante e forte que semeava, erigir-se-ia uma sombra da existência, do intelecto, um retrato frágil e caduco, sem reserva de orgulho. Era a cobrança necessária para sobreviver ao assalto da minha consciência. Viveria depois deste dia até vontade em contrária de um Deus qualquer uma semi-existência.

Fui à cabeça da cama onde descansava aquela que tinha por melhor amiga, esperei uns segundos, como que a permitir uma qualquer objecção ao acto, e acordei-a.

 

Neste minuto morreu parte de mim, sobrevivendo para memória futura uns resquícios de estar, qual nostalgia comportamental, a fazer lembrar o que fora e a não deixar esquecer o que era.

 

PAS

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